Texto presentado en el "VIII Congresso Nacional de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas" celebrado en Mayo de 2004 en Estoril, Portugal y reproducido con autorización expresa del autor.
A presente comunicação visa sensibilizar os bibliotecários e os profissionais de bibliotecas para a necessidade de contemplar materiais de banda desenhada nas suas colecções. Neste sentido a comunicação procura em primeiro lugar mostrar que existe um vasto universo e um enorme potencial na banda desenhada, em segundo lugar pretende eliminar certos preconceitos ou estigmas que estão tradicionalmente ligados a esta forma de arte ou de simples comunicação (arte menor, sub literatura, forma de narração dirigida a um público infantil e juvenil, excesso de violência, etc.) e por último dar a conhecer uma série (não exaustiva) de questões relativas à cadeia documental que a Biblioteconomia tradicional não resolve ou para as quais os profissionais de bibliotecas não estão devidamente sensibilizados.
É, em primeiro lugar, um meio de expressão narrativo. Tal como na linguagem escrita a narrativa em banda desenha é sequencial, só que em vez de utilizar a palavra escrita como forma de expressão utiliza a imagem visual (com ou sem palavras a acompanhar). Assim, a banda desenhada é um meio de expressão (artístico, informativo ou científico) narrativo através de imagens sequenciais. Tal como sucede com a escrita a banda desenhada pode produzir livros de ficção (nomeadamente romances, aventuras, policial, histórica) ou de não ficção (biografias), pode elaborar manuais didácticos (para qualquer grau do ensino desde o básico ao superior), ensaios, teses e trabalhos académicos (no Japão já aconteceu serem apresentadas teses científicas na área da Economia em banda desenhada) ou reportagens. Pode também ser apresentada em forma de prosa ou de poesia. Tal como a escrita a banda desenhada pode ser dirigida a um público infantil, jovem ou adulto. Pode ser ainda dirigida a especialistas em áreas determinadas do conhecimento humano (Economia, Direito, Física, Ciências Documentais) ou ao grande público.
O autor destas linhas, se tivesse talento suficiente, poderia perfeitamente apresentar este trabalho através de uma narrativa visual (não puramente escrita) ao público especialista constituído pela comunidade científica dos profissionais de bibliotecas e documentação, sem perder uma única linha do seu conteúdo, bem como o rigor científico ou a seriedade do mesmo. Tal como o texto escrito a banda desenhada socorre-se exactamente dos mesmos suportes físicos e a níveis idênticos: a monografia, o seriado (ou recurso contínuo), o documento electrónico e o analítico. Por fim, a banda desenhada não pode ser confundida com a obra ilustrada (nesta a narrativa não se desenvolve em imagens, são as imagens que acompanham a narrativa escrita). Não pode de igual modo ser confundida com a animação (a animação está para a banda desenhada tal o cinema está para a escrita), nem pode por último ser confundida com o cartoon ou a caricatura (em que se utiliza a uma só imagem ou ilustração para fazer sátira).
A banda desenhada é contudo um meio de expressão que ainda não encontrou pleno reconhecimento pela sociedade, tanto ao nível do establishment cultural como ao nível científico.
A este meio de expressão tem estado sempre associado um certo estigma infantilizante (pouco sério) que a impede de ser plenamente reconhecida. Estigma esse que resulta do facto de a maioria das publicações que utilizam este meio de expressão narrativo se dirigirem (tanto historicamente como nos nossos dias) a um público jovem.
Assim, enquanto o mundo da cultura é dominado pelo quarteto da literatura, música, cinema e artes plásticas (pintura e escultura). O mundo da produção científica é dominado unicamente pela escrita (temos a título de exemplo as normas impostas para a apresentação de comunicações neste congresso).
Deste modo, não é estranho que a banda desenhada ocupe um papel secundário nas colecções das bibliotecas, uma vez que o mesmo sucede com a posição que ocupa na sociedade. Os bibliotecários, por sua vez, quando chega a hora de seleccionar os materiais para a biblioteca acabam também por valorar negativamente a banda desenhada. Associam-na imediatamente como sendo dirigida a um público infantil ou jovem. Quando a associam a um público adulto é porque a obra comporta temática e imagens de sexo ou violência (exemplo [2]).
Verifica-se assim que existe um enorme desconhecimento por parte dos profissionais de bibliotecas em relação à banda desenhada. A grande maioria é capaz de se lembrar de nomes como Hergé, Goscinny, Morris, Hugo Pratt, Moebius, Miguelanxo Prado, Bill Waterson, Eduardo Teixeira Coelho ou Quino - todos grandes autores, sem dúvida, mas quem ousa colocá-los no mesmo patamar, ou dirigidos ao mesmo público que os grandes nomes da literatura? Por outro lado, quantos conhecem ou já ouviram falar em Art Spiegelman, Joe Sacco, Edmond Baudoin, Marjane Satrapi, Harvey Pekar ou José Carlos Fernandes?
É em relação a este tipo de autores que continua a haver um grande desconhecimento (quer dos opinion makers no meio cultural, quer dos profissionais de bibliotecas) o que os conduz muito injustamente a uma situação de marginalização. Marginalização por serem apenas reconhecidos no meio restrito da banda desenhada (que continua socialmente a ser conotada com o tal estigma infanto-juvenil), quando as suas obras narradas através de uma sequência de imagens (em BD, portanto) têm tanto de infanto-juvenil como a obras de Hemingway, Auster, Rimbaud, Borges, Villa-Matas ou Saramago.
Talvez por esse motivo, tanto os autores como os especialistas em banda desenhada começaram a designar este tipo de obras, dirigidas a um público exigente e maduro, como literatura gráfica. Mas a banda desenhada tradicional, dirigida sobretudo a um público jovem, é também alvo de uma certa marginalização por parte das bibliotecas públicas. A este respeito e segundo um inquérito levado a cabo pela Bedeteca de Lisboa, 40% das bibliotecas (que responderam ao inquérito) consideram a banda desenhada como "a última das prioridades" em matéria de aquisições. Também o mesmo inquérito revela que apenas quatro bibliotecas afirmam ter um fundo documental de banda desenhada superior a 2% do fundo geral.
Contudo, este tipo de BD não deixa de ter grande mérito, pelo que deve ser também alvo de uma maior atenção por parte das bibliotecas, como iremos ver.
Uma das potencialidades mal exploradas da banda desenhada nas bibliotecas públicas é precisamente a de cativar os leitores na faixa etária da adolescência. Sabemos que o segmento etário composto por adolescentes é aquele que tradicionalmente é mais difícil de se envolver nas actividades da biblioteca. Uma das causas do desinteresse pode ser precisamente a inexistência de uma oferta documental específica para este grupo populacional, que consome sobretudo produtos electrónicos: Internet, DVD, compactos musicais e banda desenhada. Consomem tudo o que tenha a ver com a cultura da imagem e do som.
Numa altura em que os jovens têm uma ampla oferta audiovisual e multimédia (videojogos, DVD, Internet) a banda desenhada pode surgir como uma ponte entre a cultura visual dominante e o mundo dos livros e da literatura tradicional. Por outro lado, a fidelização dos leitores naquela fase complicada da adolescência e a promoção do uso dos diferentes serviços da biblioteca, na transição entre os diferentes níveis de leitura, é mais fácil através da BD do que através da literatura escrita. Ao contrário do que acontece com a literatura convencional (puramente escrita) o leitor de banda desenhada infantil, passa sem grande esforço (quase inconscientemente) para a banda desenhada dirigida aos jovens e, por sua vez, sem nenhum esforço para a literatura gráfica adulta. Ou seja: o jovem leitor não transita com tanta facilidade do "Harry Potter" para "Os Maias" como do "Asterix" para "Maus". É, pois, lamentável que muitos se queixem que os jovens apenas se interessem pelas secções audiovisual e multimédia das bibliotecas e que em simultâneo haja um desconhecimento ou marginalização por parte dos profissionais de bibliotecas em relação à banda desenhada e às suas potencialidades.
Contudo, a banda desenhada, enquanto meio de narração sequencial em imagens comporta uma série de especificidades que a diferencia, por vezes, da narrativa tradicional escrita. Essas especificidades são importantes para o documentalista que selecciona, cataloga, classifica, indexa e empresta os materiais em banda desenhada e que nunca foram analisadas com a devida atenção pela Biblioteconomia.
A própria Biblioteca do Congresso só começou a tratar os seus materiais de banda desenhada em finais dos anos anos 70 (exemplo [6]). Até então a BD existente na Biblioteca do Congresso não tinha dignidade suficiente para ter direito a um registo bibliográfico. Não havia nenhum documentalista que pudesse comprovar através do catálogo a existência do Super Homem ou do Batman. Talvez, por isso, sejam tão raras as alusões à banda desenhada nos manuais e nas normas de Biblioteconomia. Contudo iremos analisar de seguida algumas dessas características:
Começando logo pelas monografias de banda desenhada verifica-se que elas se dividem essencialmente em dois tipos (exemplo [3]):
No caso da banda desenhada, ao contrário do que sucede com a literatura tradicional podemos afirmar com segurança que a regra é a das obras monográficas em diferentes volumes. Um outro problema que a banda desenhada levanta é a questão da colecção, que em BD tem um significado diferente da colecção na literatura convencional. Na maioria dos casos a colecção em BD significa "obra em diferentes volumes", enquanto na literatura convencional a colecção corresponde apenas a uma determinada linha editorial, sem que haja qualquer elo de ligação entre os diferentes títulos que compõem a colecção. São para todos os efeitos obras diferentes.
Em função da tipologia supra podemos antever que a selecção documental de banda desenhada deve ser bastante cuidadosa. Assim, em primeiro lugar os esforços da biblioteca devem concentrar-se no sentido de completar as colecções de banda desenhada. Faz tanto sentido ter apenas um ou dois volumes do Akira ou do Blake & Mortimer, como ter apenas o primeiro volume do D. Quixote. Sempre que isso acontecer a obra está incompleta. Estando as colecções (ou as obras) completas, pode a biblioteca partir para novas aquisições em banda desenhada, devendo ter em conta os seguintes critérios (exemplo [4]):
Por último, é de lembrar que existem em Portugal diversas livrarias especializadas em banda desenhada (Lisboa, Porto, Coimbra e Almada). Se as bibliotecas recorrem a lojas especializadas para adquirir CDs, DVDs e jogos de computador, porque não o fazem em relação à banda desenhada, quando nessas lojas encontram pessoal qualificado que pode ajudar o documentalista a seleccionar e a completar as colecções?
Ao nível de pesquisa começamos por sugerir a possibilidade que deve ser conferida ao leitor de limitar a pesquisa à banda desenhada, sempre que a colecção (tanto o fundo geral como o fundo de banda desenhada) tenha uma dimensão tal que o justifique. Hoje em dia qualquer módulo de pesquisa (dos sistemas integrados de gestão de bibliotecas disponíveis no mercado) incorpora menus de restrição que permite à biblioteca fazer as restrições que entender para facilitar a pesquisa ao leitor. Por tipo de documento, por colecção, língua, etc. Esta possibilidade de pesquisar apenas a banda desenhada facilita o trabalho ao leitor que se dirige à biblioteca só para consultar a colecção de BD e, por outro lado, permite identificar com facilidade, dentro de um determinado fundo documental a banda desenhada.
Como sabemos, não existem regras específicas para a catalogação da banda desenhada, ainda que sejam evidentes as diferenças entre este meio (narrativo através de imagens sequenciais com ou sem palavras) e a narração puramente escrita através de palavras. Contudo, também a banda desenhada socorre-se dos mesmos suportes e surge nos mesmos níveis que a escrita: monografias, seriados (recursos contínuos), documentos electrónicos e analíticos, pelo que temos de nos socorrer das normas existentes para catalogar estes materiais e fazer as adaptações que se afigurarem necessárias para a banda desenhada (exemplo [1]).
Seria entediante (nem esta comunicação se pode confundir com uma aula de catalogação) estar a desenvolver em pormenor todas as especificidades da BD que conduzem a problemas de catalogação. De qualquer modo gostaria de aflorar aqui alguns problemas e fornecer algumas sugestões relativas à descrição do documento (ISBD).
Assim, começam desde logo a surgir problemas na menção de responsabilidade. Como sabemos a banda desenhada é muitas vezes resultado de um trabalho a dois. O desenhador e o argumentista. Para saber a quem é que corresponde a primeira menção de responsabilidade temos de saber quem é o autor principal da obra. O desenhador ou o argumentista? Não existe, infelizmente, uma resposta nem da banda desenhada nem da Biblioteconomia para esta questão.
Uma zona que também deve ser alvo de alguma atenção é a zona da colação ou descrição física. É muito usual banda desenhada surgir com a especificação "toda il." na zona da descrição física. Contudo, se atentarmos ao que dizem as Regras portuguesas de catalogação (exemplo [5]) no exemplo 5.2.3 chegamos à conclusão que a especificação pode ser inequívoca constando: "il. banda desenhada". Isto porque a referida norma indica claramente que pela sua importância se pode especificar o tipo de ilustração que entendermos.
Também o campo referente à zona 6 colecção ou série é de extrema importância. Como vimos na tipologia das monografias a grande maioria das obras de BD desenvolve-se em diferentes volumes a que se convencionou chamar colecção. Muitas vezes as obras são mais conhecidas pela colecção do que pelo título próprio. Logo, o campo referente à zona 6 deve ser de preenchimento obrigatório. De notar também que as obras cuja história ou narrativa se desenvolve em dois ou mais volumes deve ser objecto de uma catalogação a dois níveis.
Pontos de Acesso. As Regras portuguesas de catalogação (exemplo [5]) fazem uma única alusão à banda desenhada. "E.P.M. 4.6. Obras ilustradas com pouco ou nenhum texto: 2) Rosto: Miguel de Cervantes Saavedra, don Quixote de la Mancha, desenhos, adaptação e fotografia de A. Albarrán [Banda desenhada]. Entrada principal: ALBARRÁN, A. Entrada secundária: CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de - Don Quixote de la Mancha"
Deste exemplo previsto nas RPC, houve quem extraísse que o ponto de acesso principal na banda desenhada era conferido ao desenhador sobrando para o argumentista o ponto de acesso secundário. Contudo este exemplo em nada nos pode ajudar, uma vez que aquele a quem foi atribuído o ponto de acesso principal é também o argumentista. A obra em causa é uma adaptação para banda desenhada do D. Quixote. Pelo que Cervantes nunca poderia ser autor da obra, tal como nunca o seria se a obra fosse uma adaptação do D. Quixote para o cinema.
Pelo que continua por resolver a questão do ponto de acesso principal e secundário para a BD. Não é pois de estranhar que no inquérito acima referido as bibliotecas que responderam tenham adoptado quatro critérios diferentes para a determinação dos pontos de acesso nas obras de banda desenhada. Assim:
Estão assim as bibliotecas portuguesas a catalogar a banda desenhada de forma diversa.
Também as funções de responsabilidade em BD não têm paralelo com as funções de responsabilidade previstas no Unimarc, ou seja, não existem funções no Unimarc onde possamos "encaixar" as responsabilidades típicas de banda desenhada. Assim, na banda desenhada podemos encontrar as seguintes funções ou responsabilidades:
É, por conseguinte, urgente que o Unimarc preveja estas funções de responsabilidade, atribuindo-lhes uma designação e código, em especial para as funções de desenhador de banda desenhada e argumentista de banda desenhada.
Também em matéria de indexação a banda desenhada apresenta algumas características diferenciadoras, até porque as perguntas mais frequentes dos utilizadores diferem das perguntas habituais. Na banda desenhada podemos dividir as perguntas mais frequentes em três níveis distintos:
Face a este conjunto de questões, sobretudo em matéria de processamento documental, que as normas continuam sem dar uma resposta adequada afigura-se de grande utilidade a criação de um grupo de trabalho de banda desenhada composto por bibliotecários e profissionais de biblioteca de preferência com algum conhecimento ou interesse e gosto pela banda desenhada, junto à BAD. Tal permitiria:
Por outro lado as bibliotecárias e os bibliotecários poderiam escrever para as revistas especializadas sobre as suas experiências com a BD, sobre a selecção, as aquisições, as dificuldades do processamento documental, a arrumação nas estantes, o público da BD, os empréstimos e as acções de animação, tal como já começaram a fazer os nossos pares no estrangeiro (vide NOTAS).
Em jeito de conclusão gostaria apenas de relembrar e defender alguns pontos que vale a pena reter:
Adalberto Barreto - Bedeteca de Lisboa - adalberto.barreto@cm-lisboa.pt